Há poucos dias, o jornalista Ronildo Maia Leite, em conversa com o sociólogo Nelson Saldanha surpreendeu-se ao saber que este desconhecia totalmente a poesia de Potiguar Matos. Convivendo com ele, tantos anos na Universidade Federal de Pernambuco, e há quase uma década na Academia Pernambucana de Letras, Nélson sequer saberia citar um poema de seu velho colega. E como poderia? Ao longo de toda sua vida Potiguar - aquele orados carbonário, capaz de mesmerizar platéias pelo impacto de seu verbo - jamais delatou seu talento de poeta. "Se é que o que eu escrevo é poesia", ironizava, usualmente.
Versos esparsos, poemas inteiros e até sonetos, vêm do final dos anos 30, crio que de 1939, a se dar crédito a um caderno, amarelicido pelo tempo, no qual registrou seus primeiros versos, com a caligrafia segura e personalíssima que marcaria seus manuscritos. Típico exemplar da época, o caderno, de cor verde, trazia na capa intitulada colegial, o desenho de quatro estudantes - dois garotos, duas menina, devidamente uniformizados, boianas à cabeça - a caminho da escola, e a inscrição em latim, à qual o usuário apôs a advertência: Reservado. Potyguar Matos. Assinava-se , então com y. Na contracapa, como era de se esperar, a letra do Hino Nacional. Se, tomando o lugar das declinações, os primeiros poemas que ali estão reunidos representam suas incursões iniciais, ignoro. Em 1939, ele tinha 18 anos e vivia a aventura recifense. O poeta não teria se revelado no Menino de Pesqueira?
Foi nesse velho caderno que Potiguar registrou mais de vinte anos de exercício lírico. Na última página encontramos uma poesia escrita em 12 de maio de 1962. Boa parte do que acumulou nesse período, selecionou para o livro A Face e o Tempo, pequena edição particular, feita por insistência dos amigos. A mesma que, ainda por indução desses amigos teve a "coragem de inscrever em concurso da Academia Pernambucana de Letras. Vencedor, em 1982, do Prêmio Othon Bezera de Mello, concedido pela APL nempodia imaginar que, cinco anos depois estaria sendo eleito, por unanimidade para casa de Carneiro Vilella.


